quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Cartas para o meu pai: 2 anos sem você

É hoje, né? Confesso, não estava não no clima de escrever, mas acho que é assim que deve ser. Eu não gosto de fazer as pessoas chorarem quando eu falo de você, mas só um dia nublado essa semana foi suficiente pra lembrar de quando você fazia café no fim da tarde no domingo e ouvia Antena 1 logo cedo pelo sábado e chorar. Não de tristeza, apenas saudade.

Queria te contar tantas coisas, pai. Acho que você ficaria tão feliz com as coisas que me aconteceram nos últimos dois anos, como quando saí no jornal pela primeira vez e você colocou o porta retrato na parede da sala.
Eu não queria dizer como foi te perder, mas, já deve ter visto que aprendi mais sobre o amor. Sobre o verdadeiro. Infelizmente aprendi dessa forma, que não foi uma escolha. Acontece. As pessoas não entendem quando dou risada falando de você. Foram tantas lembranças boas, que não tenho motivos pra chorar. Eu quero seguir em frente, porque independente de estar ao meu lado ou não, parte de quem sou hoje e parte de minhas lembranças boas tem você. E eu só tenho a sorrir e agradecer por isso.

eu gosto da vista da sua janela.

Esse ano eu visitei a nossa família. Eu não os via desde que você partiu e poxa, eu precisava de mais coisas boas pra lembrar. Como quando a gente montava a árvore de natal todos os anos e tínhamos quase que "tradições". É, agora eu saio sozinha. Eu vou no centro comprar as coisas pra montar a árvore desse ano, como a gente fazia. Claro, não é a mesma coisa, mas eu precisava adaptar, né? Vai ser assim pra sempre e você sabe o quanto eu gosto do natal. O quanto os nossos natais foram especiais. Desde você se vestir de papai noel pro prédio todo até ir em outra cidade comprar coisas pra fazer meus gostos. Da mesma forma que você sabia o quanto eu gosto de taças e comprou uma pra me agradar. As nossas noites de pizza e refrigerante na taça eram muito legais. Nem preciso mencionar de quando a gente soltava bombinhas ou de quando você foi pra roça com um chapéu rosa e todos nós rimos muito de você.

você gostava muito desse céu e dessas estradas

 Seu violão está aqui, com as mesmas cordas quebradas que você não sabe até hoje que fui eu quem quebrei-e assim como você, eu não sei tocá-lo. Um dia eu aprendo.

Ultimamente lembrei tanto das coisas que aprendi com você. De como você ficava feliz por mim. O primeiro mergulho, a primeira bicicleta... o cavalete que você montou só pra que eu pintasse meus desenhos com folha sulfite e guache. De como nós ríamos juntos. Um dia fizemos isso até passar mal, lembra?
Hoje eu estou estudando na escola onde você queria que eu estudasse, a mesma da minha irmã. Tem o meu sorvete favorito lá perto. Isso me lembra dos nossos passeios periódicos pela praia sempre comprando o sorvete de uva no mesmo lugar. Ou de quando você sentava sempre na mesma mesa no McDonald's no fim da noite e comia os lanches só pra pegar os brindes pra mim. E de como você gostava do sorvete da Kascão de abacaxi com pedaços. De quando você trazia seu lanche da hora extra pra mim.

Lembro também da páscoa. Nós íamos no Extra e você me dizia pra escolher um ovo. Mal sabia você que aquilo era tão divertido pra mim. Assim como quando você fazia pequenas surpresas, como comprar seis esmaltes na semana porque sabia que eu gostava e quando viu, lembrou de mim. Eu gostava tanto quando você me ajudava a encontrar esmaltes.


o nascer do sol mais bonito que eu já vi até hoje.  foi da sua janela.

E ah, sim, eu fui teimosa. Eu sei como você gostava de pentear meu cabelo e não queria que eu o pintasse de vermelho, mas eu pintei. Lembro de quando você me zoava por passar chapinha ou químicas. Me dava caixa de mercado pra colocar na cabeça e sair na chuva. Dizia que eu ia ter alergia por testar esmaltes na mão. Eu também nunca vou esquecer de quando você saiu tarde do trabalho e veio comer um pedaço de bolo na minha casa e me dar parabéns, afinal você me ajudou a juntar dinheiro para a festa toda mas estava trabalhando, não poderia vir.

Ah sim, eu fui na praia, pela primeira vez estar ali sem você foi feliz. Eu andei a orla toda, acredita? Nunca tinha feito isso. Lembro de quando você zoou meu primo por andar a rodoviária e a orla toda só pra chegar no apartamento. No meio do caminho eu achei o meu sorvete favorito, aquele mesmo que a gente tomava, e passei pela rua que costumávamos andar. Eu lembro de cada fim de tarde. De quando ficamos horas observando uma lesminha sair da concha. De cada fim de tarde que você saía do trabalho e nós íamos, no horário de verão, bem no fundo da água até vermos peixes pularem. Cada pedacinho daquele lugar tem uma história nossa.


Não sei finalizar... ontem antes de dormir eu lembrei muito de você, e só queria escrever isso aqui. Não é um fim. Hoje fazem dois anos que eu não te abraço e ouço "vê se não gasta com besteira, hein. Te amo". Dava 21h  e eu costumava receber sua ligação. Dá saudade, dá aperto, mas mais do que isso eu aprendi a compreender um pouco mais as coisas, a ser um pouco mais humana como você era (e como era hein, seu chato). O tempo passa, a saudade é a mesma, mais lembranças vão ficando claras na minha mente, e é só isso que eu quero guardar de você: o quanto eu aprendi e fui feliz nos 13 anos que passamos juntos. Eu te amo.

2 comentários:

  1. Que lindo isso, Larissa. Sei o quanto a saudade aperta, e sei exatamente como é essa sensação de querer contar pra eles tudo de bom que tem acontecido com a gente. Seja dois anos, como no seu caso, ou vinte, como no meu, a saudade é sempre a mesma, mas o que fica é pensar que seja lá onde eles estejam, eles estão muito orgulhosos da gente!

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  2. Já que não posso te dar um abraço bem forte agora,
    Te dou um recado bem forte: Ele nunca sairá do seu lado. Ele nunca te deixará desamparada. Ele nunca te deixará desprotegida. Ele te amou demais como pai. E agora te ama demais como anjo.

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